Jornal de Negócios

Chance para viver uma nova história

Curso oferecido pelo Sebrae-SP em penitenciárias leva conhecimento sobre empreendedorismo a reeducandas

Viver uma nova realidade faz com que as pessoas possam refletir sobre o fizeram e o que elas podem fazer dali para frente. O mundo é muito diferente quando existem muros inalcançáveis, mas sempre há uma saída, uma maneira para recomeçar e assim ter nova chance de reescrever uma história justa e bem-sucedida.

Pensando nisso, o Sebrae-SP deu uma nova oportunidade para as reeducandas das penitenciárias femininas de Sant’Ana e da Capital com o programa Aprender a Empreender, que busca capacitar todas participantes em temas relacionados ao empreendedorismo com o objetivo de auxiliar na ressocialização e ensinar uma forma de obter ocupação e renda.

No total, o projeto capacitou 196 reeducandas das duas unidades prisionais. Foram 540 horas em sala de aula, de março a novembro de 2017, abordando temas como formalização, fluxo de caixa e também gestão de pessoas. No início de dezembro do ano passado houve a entrega de certificados às reeducandas da Penitenciária Feminina Sant’Ana que participaram do programa. O evento foi realizado na própria unidade prisional.

Uma das participantes dessa turma, Valdelice Duarte Torres, foi escolhida para representar toda a sua turma na hora de fazer o juramento. Em coro, todas repetiram as palavras dela: “Eu prometo continuar meus estudos, com mesmo empenho e dedicação, procurando ser sempre alegre e feliz, respeitando a todos e tendo sempre em meu coração todos os que foram importantes até o dia de hoje. E assim eu prometo”.

Para Claudia Lourenço da Silva, agente do Sebrae-SP e que também foi professora do curso, a experiência de poder trabalhar com as reeducandas foi “incrível”. “Foi um trabalho de comprometimento, de muita persistência”, conta. Claudia ressalta que o projeto foi muito importante por mostrar que há uma vida para todas elas do lado de fora, e o começo dessa nova jornada pode ser empreendendo. “Elas se doam, elas se dedicam, sonham, têm esperança, acreditam no mundo lá fora. É uma oportunidade de vida para que elas possam se reencontrar e fazer da vida delas uma história melhor”, disse.

A seguir, conheça algumas dessas reeducandas e o que elas esperam do empreendedorismo:

Valdelice Duarte Torres, 50 anos, já está há mais 17 sem ver o que acontece do lado de fora. Ela já havia perdido as esperanças de conseguir um emprego quando saísse da penitenciária, mas durante o curso pôde perceber que cada pessoa tem potencial para algo e que pode sim ter um novo começo. 

“O programa aflorou o que há de positivo e capaz dentro de mim, me mostrou como é o comportamento de um bom empreendedor, informações necessárias para eu poder abrir meu negócio. Agora eu sei o que são estratégias de planejamento, fluxo de caixa, e também a imprescindível rede de contatos”, afirma.?Ela conta que já tentou abrir um negócio anteriormente, mas não deu certo. Após a capacitação que recebeu no curso se sente mais segura em tentar abrir uma empresa. “Me sinto muito mais preparada, vou precisar de ajuda da minha família, mas eu vou sair daqui com muita vontade de ter o meu negócio e se realmente acontecer vai ser no ramo de cosméticos”, diz.

Lilian Fernanda Arruda, 39, também já teve um negócio antes de ser presa, mas, segundo ela mesma, fazia tudo errado. “Sei me organizar a partir de agora. Foi muito proveitoso. Aprendi como formalizar meu negócio, como fazer divulgação, todas etapas necessárias para dar tudo certo”, conta. Segundo Lilian, empreender vai ser a oportunidade que terá do lado de fora, então ela pretende se dedicar ao máximo e colocar em prática tudo o que aprendeu na sua futura loja de roupas. “Vou formalizar meu negócio, pretendo voltar à ativa, esse com certeza vai seu meu caminho”, afirma.

 

Para Gildete Brambilla, 55 anos, o fato de já ter tido um empreendimento antes deu um sabor especial ao curso: agora ela consegue entender melhor os erros que cometeu no negócio anterior. Ela tinha um comércio no Ceagesp, onde vendia café da manhã, sopa e vários tipos de caldos. “É onde eu me identifico, gosto muito de lidar com o público. O mais interessante para mim foi saber que existem outras formas de explorar o comércio”, diz. Gildete conta que não vê a hora de poder tocar novamente no seu negócio e acredita muito na virada de jogo. “Minha vida não é aqui dentro, minha vida é lá fora”, ressalta.