Sebrae Transforma

Após anos ‘pagando para trabalhar’ no seu salão, empreendedora conseguiu se organizar

Eliane Lira contou com ajuda do Sebrae e foi capaz de passar pandemia sem sofrimento

A cabeleireira Eliane Lira, 39 anos, chegou ao limite cerca de três anos atrás. Dona de um salão de beleza em Guarulhos, ela estava completamente perdida com as contas do negócio e não sabia nem mesmo como remunerar corretamente as profissionais parceiras que atendiam no salão. Pior: ela não conseguia mais fazer retiradas e, muitas vezes, precisava de uma ajuda do marido para pagar o aluguel do imóvel – isso antes de ele perder o emprego. O salão chegou até mesmo a sofrer um corte de água por falta de pagamento. “Eu trabalhava muito, estava cansada e não tinha retorno, era como se nadasse e morresse na praia. Eu não via a cor do dinheiro”, lembra.

Eliane conta que começou a trabalhar em um espaço pequeno em 2011 com uma sócia. Em, 2014, mudou de imóvel e passou a cuidar sozinha do salão que leva seu nome. “Aluguei um espaço e chamei uma manicure e uma cabeleireira para trabalhar comigo, mas não entendia nada de gestão e gastava todo o dinheiro com as contas de casa”, diz. Além disso, ela repassava os valores para as parceiras sem descontar nada, como taxa de manutenção e mesmo a taxa da maquininha de cartão. “Eu não sabia nada sobre as entradas e saídas e não sabia nem o que era pró-labore. Na verdade, eu estava pagando para trabalhar”, afirma.

Quando Eliane resolveu procurar o escritório do Sebrae em Guarulhos, ela lembra que entrou no local chorando. A partir de um diagnóstico inicial, passou a se capacitar com cursos como a Oficina de Beleza (que ela fez duas vezes) e até um de vendas porta a porta para MEIs.

“No começo eu pensei: ‘o que isso tem a ver comigo? ’, mas fui fazer e foi incrível. Aprendi muito sobre vendas e sobre como controlar o dinheiro”. Para o consultor de finanças Pedro Luis Teles, que atendeu Eliane desde o princípio, o descontrole financeiro era reflexo da falta de conhecimento sobre o básico da empresa e de suas próprias limitações como empreendedora. “Percebi que a origem dos problemas financeiros estava na falta de processos definidos, do fato de sua agenda estar com espaços vagos e, principalmente, na falta de autoconfiança”, conta.

Além do incentivo ao aprendizado sobre conceitos de finanças e gestão, Teles orientou a empreendedora a enxergar melhor quais seriam seus potenciais clientes. “No mundo todo, os empreendedores trabalham sua microrregião para se tornarem primeiro os melhores de seu bairro e depois conquistar outras regiões e mercados. No caso da Eliane, isso diminuiria o custo de locomoção para atendimentos em casa e ela ficaria mais próxima de suas clientes”, diz.

Com os primeiros cursos, os resultados começaram a aparecer e Eliane mudou processos: conversou com as parceiras sobre a nova realidade da remuneração e também passou a guardar o dinheiro do salão para ser utilizado apenas no salão. O passo seguinte foi desenvolver o comportamento empreendedor com o Empretec. “A partir daí as coisas foram se encaixando e eu realmente passei a viver uma realidade de empreendedora”, afirma.

EM ORDEM NA CRISE

Na prática, isso permitiu que Eliane passasse toda a pandemia sem ter prejuízo. “Eu não sofri porque tinha uma reserva e também avisei a dona do imóvel que talvez não conseguisse pagar o aluguel no futuro”, lembra. Mas o “pulo do gato” foi a ideia de comprar embalagens, envasar e etiquetar cosméticos que ela tinha em grande quantidade como uma amostra grátis, enviados para a casa das clientes com uma cartinha personalizada. “Eu disse a elas que nós estávamos longe, mas estávamos juntas. Eu enviei algo que elas precisavam, e que se elas quisessem eu estava aqui para oferecer”, diz.

O resultado foi um crescimento na venda desses produtos para uso em casa, que rendiam um bom lucro e resultaram em um marketing boca a boca muito positivo.

“O salão não sofreu com os danos da pandemia por causa do planejamento. Se não tivesse isso, talvez nem estaria mais lá, teria fechado as portas”, ressalta. O próximo compromisso de Eliane agora é conseguir se mudar para um imóvel térreo, de olho nas clientes mais idosas que reclamam das escadas. “Eu sempre digo que um negócio não é a respeito de vender um produto, mas sim a respeito de gente e de parceria”, completa.